A insistência em implorar por conciliações virtuais revela o receio das multinacionais em encarar os trabalhadores e justificar erros de algoritmos na frente do Juiz.
Quem acompanha os bastidores dos processos judiciais envolvendo trabalhadores independentes e grandes aplicativos de entrega já percebeu uma manobra padrão da retaguarda burocrática dessas multinacionais. Existe uma tentativa persistente de transformar toda e qualquer audiência em um ato totalmente virtual, realizado apenas por trás das telas de computador.
Como jornalista profissional e entregador atuante nas ruas do Rio de Janeiro, estou vivenciando essa farsa na pele em um processo contra o próprio iFood. A empresa tentou de todas as formas fugir do olho no olho na mesa de conciliação, protocolando pedidos para que o ato fosse online, mesmo após o Juiz de Direito ter decretado a obrigatoriedade da sessão presencial.
Essa insistência em fugir das salas dos fóruns vai muito além de uma busca por comodidade tecnológica. Na física real dos tribunais, o ambiente virtual serve como um escudo protetor para que grandes corporações enviem defesas padronizadas, geradas por robôs de copiar e colar, sem o risco de sofrerem um enquadro direto sobre a realidade das ruas.
No meu caso específico, a retaguarda do aplicativo chegou ao ponto de assinar uma contestação alegando que a minha conta estava excluída, sendo que permaneço rodando com Score Super Ouro ativo. Tentaram ainda invalidar o meu comprovante de residência alegando falta de data, uma manobra que o Juiz leigo rejeitou imediatamente em despacho oficial.
Quando o trabalhador consegue barrar essa fuga virtual e força a plataforma a comparecer ao balcão presencial, a banca jurídica da marca desmorona. Diante de um profissional com o painel de indicadores totalmente verde e documentos legítimos na mão, os relatórios confusos de páginas e páginas de códigos perdem a credibilidade perante o conciliador.
A verdade factual das pistas é o maior temor dos algoritmos. Forçar empresas como o iFood a saírem do conforto do silêncio digital e pisarem no chão da Justiça comum é o primeiro e mais importante passo para desmascarar punições cegas, bloqueios abusivos e a total falta de transparência tecnológica.
